Alexandre O'Neill, 1975
créditos : Autor não identificado
Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, escritor, poeta, tradutor e publicitário, nasceu em Lisboa em 19 de Dezembro de 1924. Foi um importante poeta do Movimento Surrealista Português.
Autodidacta, antes de chegar a poeta, O´Neill, que reprovara nos exames e abandonara os estudos, aprendeu a viver de biscates e do que escrevia. Foi escriturário, empregado de seguros, tradutor de romances, de poesia e de manuais científicos.
Colaborador de jornais e revistas, autor de textos para cinema, teatro, televisão e rádio, letrista de fados, foi ainda um dos mais importantes criativos publicitários. É dele o genial slogan com direito a figurar no Dicionário de Provérbios Portugueses :
“Há mar e mar, há ir e voltar”,
O'Neill, como já escrevi mais acima, foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. O poeta descobriu o Surrealismo em 1945, quando conheceu Mário Cesariny, no café lisboeta “A Cubana”.
Em Outubro de 1947, fundou com Cesariny e outros artistas, como José-Augusto França, João Moniz Pereira e António Domingues, o Grupo Surrealista de Lisboa, no qual teve a possibilidade de “escrever, pintar, desenhar colectivamente, rompendo com o individualismo progressista-burguês”
É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, Mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba.
A Ampola Miraculosa
Alexandre O'Neill
https://alexandreoneill.bnportugal.gov.pt/
As influências surrealistas permanecem visíveis nas suas obras. Além de livros de poesia, a sua obra inclui prosa, discos de poesia, traduções e antologias.
Detestava o que chamava de "!mistério da poesia”, percorria temas como o amor, o medo e a solidão. Os seus poemas são de grande singularidade e devem ser lidos.
"Faço uns versos. Não os tomo muito a sério."
Alexandre O'Neill
https://gulbenkian.pt/cam/works/
Teve como musa inspiradora, Nora Mitrani, a francesa que o fez perder a cabeça e que a família impediu de seguir para Paris. Ficou para sempre a dizer-lhe Adeus, a tropeçar de ternura na curva do poema.
Um Adeus Português
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
(...)
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
Alexandre O'Neil,
in RTP Ensina
Não conseguindo viver apenas da sua arte, O'Neill alargou a sua criatividade à publicidade.
"Trabalho diariamente em publicidade de produtos e serviços. Nunca tive de enganar ninguém. Se assim acontecesse, mudaria de profissão. Que os consumidoes nos consumam e vigiem."
Alexandre O'Neill, entrevista Diário de Lisboa, 1986
Em 1958 Sai No Reino da Dinamarca, na colecção "Poesia e Verdade" da Guimarães Editores. É um livro que dá já o tom da obra do poeta: a ironia – que é sempre moralizadora –, o sarcasmo e o cinismo – formas pudicas de (não) expor desesperos, ternuras, sofrimentos.
Com a edição de No Reino da Dinamarca, Alexandre O’Neill viu-se reconhecido como poeta...
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
Alexandre O'Neill, A meu favor
in No Reino da Dinamarca
Na década de 60, provavelmente a mais produtiva literariamente, foi publicando livros de poesia, antologias de outros poetas e traduções.
Edição original. Incluída na Colecção Poesia e Verdade. Raro e primeiro livro português com poesia visual.
Valorizado com extensa e curiosa dedicatória autografa ao pintor Nikias Skapinakis.
Textos previamente publicados na imprensa os que O'Neill reuniu, no ano de 1985, sob o engenhoso título "Uma Coisa Em Forma de Assim" - como se quisesse lembrar-nos, assim como quem não quer a coisa, que não tinham sido vãos os já longínquos anos em que ajudara a fundar o Grupo Surrealista de Lisboa.
Selecção de poemas e prefácio de Antonio Tabucchi. Fotografia intexto e da sobrecapa de Alexandre Delgado O'Neill.
No ano em que se comemora o Centenário do Nascimento de Alexandre O’Neill, a Biblioteca Nacional de Portugal apresentou uma Exposição sobre a Obra e Pensamento de um dos responsáveis pelo encontro de Portugal com o Surrealismo, na qual pretende dar especial atenção ao trajecto intelectual de O’Neill, percorrendo várias dimensões da sua obra e do seu espólio, doado pela família à BNP, e revelando áreas da sua actividade artística menos conhecidas até ao momento.
Paralelamente à Exposição esteve prevista a projecção de algumas peças audiovisuais.
"Esta exposição não pretende abarcar todas as vertentes da sua actividade criativa, mas dar a ver alguns dos momentos mais significativos do seu percurso intelectual, a partir de elementos do seu Espólio, doado à Biblioteca Nacional de Portugal pela família. Assim, propõe-se um percurso por diferentes lugares da obra e da vida de Alexandre O'Neill, procurando revelar dimensões menos conhecidas deste autor
O Centenário seu Nascimento foi pois celebrado em 2024. Um convite para o reencontro com o poeta inclassificável, todo “coração acordeão” e ironia-ponta-e-mola:
“E se fossemos rir,
Rir de tudo tanto,
Que à força de rir
nos tornássemos pranto…”
Alexandre O'Neill
Alexandre O'Neill
créditos: Autor não identificado
👉Curta biografia:
Descendente de irlandeses, e da burguesia lisboeta, Alexandre O'Neill nasceu em Lisboa. Filho de José António Pereira de Eça O'Neill de Bulhões, empregado bancário, e de sua mulher, Maria da Glória Vahia de Barros de Castro. Neto paterno da escritora Maria O'Neill.
Autodidacta O´Neill era um poeta de Lisboa. Boémio convicto, conversador de tertúlias, vagueava pelas ruas, de caderninho na mão, a tomar nota dos “pequenos absurdos do quotidiano”. Queria ver de perto a “patriazinha iletrada”, apanhar-lhe os ridículos e parodiar os brandos costumes.
Em 1943, com 17 anos de idade, publicou os primeiros versos num jornal de Amarante, o "Flor do Tâmega". Apesar de ter recebido prémios literários no Colégio Valsassina, esta actividade não foi particularmente incentivada pela família, que almejava que Alexandre O'Neill se dedicasse mais aos estudos e tirasse um curso superior.
Datam de 1947 duas cartas de Alexandre O'Neill que demonstram o seu interesse pelo Surrealismo.
Em 1949, participa na primeira e única Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa, inaugurada a 19 de Janeiro. Apresentou cinco obras, mas apenas restaram duas peças: a colagem A Linguagem, actualmente no Museu do Chiado, e o romance-colagem A Ampola Miraculosa, datado de 1948 e publicado nos Cadernos Surrealistas. Ambos têm nítidas influências do surrealista Max Ernst.
Mas a doença começava a atormentá-lo. Em 1976, sofre o primeiro ataque cardíaco, que o poeta admitiu dever-se à vida desregrada que sempre tinha sido a sua. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral, antecipatório daquele que, em Abril de 1986, o levaria ao internamento prolongado no hospital. Morreu prematuramente no dia 21 Agosto 1986. Tinha 61 anos-
Para si mesmo tinha já escrito o epitáfio:
“Aqui jaz Alexandre O’Neill
um homem que dormiu pouco
muito pouco
Bem merecia isto.
André O'Neill,
caricatura de André Carrilho
👀BNP - Site Alexandre O'Neill :
Um novo site sobre Alexandre O'Neill, que se debruça sobre todas as suas facetas, da vida à obra, do homem ao poeta, já está disponível na página da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP).
O Site do O'Neill é um caleidoscópio de informações sobre o poeta surrealista, visto por ele próprio e pelos outros. Aborda múltiplos aspectos da sua vida, do seu humor e da sua obra.
“Assim, não espere quem o visita que se diga Debaixo daquela arcada ou A vida e obra de Alexandre O'Neill. Ficamos pela Vidinha, pelo Tomai Lá do O'Neill, passamos por várias Olhadelas e ainda espreitamos a Biblioteca”.
Ao visitar o site, é-se imediatamente direccionado para uma página que nos recebe com a assinatura de Alexandre O'Neill, a encabeçar o poema Caixadòclos .
– Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
– Que és o esticalarica que se vê.
– Público em geral, acaso o meu nome...
– Vai mas é vender banha de cobra!
– Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
– Este é dos que fala sozinho na rua...
– Campdòrique, então, não dizes nada?
– Ai tão silvatávares que ele vem hoje!
– Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
– É o do terceiro, nunca tem dinheiro...
– Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
– Dos dois ou três nomes que o surrealismo...
– Ah, agora sim, fazem-me justiça!
– Olha o caixadòclos todo satisfeito
a ler as notícias...
Alexandre O'Neill, Caixadòclos
O poema é uma espécie de autobiografia, reveladora de como o poeta não se levava a sério, recorrendo à auto-ironia e auto-depreciação, acompanhado de uma caricatura desenhada pelo ilustrador e caricaturista André Carrilho.
👀Curiosidades :
Biblioteca Municipal Alexandre O'Neill
https://www.facebook.com/BMAOCONSTANCIA/
📗📙Biblioteca Alexandre O'Neill :
Tem uma biblioteca com o seu nome em Constância que alberga, por doação do próprio escritor, parte do seu espólio. Ali, podem-se ler os livros que pertenceram a O'Neill, muitos deles com anotações suas ou dedicatórias dos autores.
👧👦Actividades :
- Convidar os alunos a visitar o site Alexandre O'Neill da BNP para recolherem a informação necessária sobre a vida e obra do autor ;
- Em diálog aberto, esclarecer os vários tópicos seleccionados pelos alunos ;
- Solicitar a escolha de um poema (por grupo de alunos) para ser dito em em sala de aula;
- A Poesia: rever o Texto Poético, recorrendo a apontamentos anteriormente anotados pelos alunos ;
- Escrita criativa: propor a cada aluno, a criação de um poema ao estilo de O'Neill. Apelar aos diferentes estilos de poesia do autor.
No dia em que Alexandre O'Neill nos deixou
A Professora GSouto
21.08.2026